domingo, maio 28, 2006

447) Um novo candidato para presidente, mas ele não corre nenhum risco de ganhar...

Da coluna de Diogo Mainardi, na Veja, edição 1958, 31 de maio de 2006

Diogo Mainardi
Gabeira para presidente

"Ganhar ele não ganha. O que eu espero dele não é isso. O que eu espero dele é
que manifeste toda a minha repulsa por lulistas e oposicionistas"

Fernando Gabeira é meu candidato a presidente. O que falta agora é convencê-lo a se candidatar.

O primeiro contato não foi muito animador. Eu disse que votaria nele. Ele respondeu que só se candidataria se fosse para ganhar. Como assim? Ele quer ganhar? Ganhar ele não ganha. O que eu espero dele não é isso. O que eu espero dele é que manifeste toda a minha repulsa por lulistas e oposicionistas.

Na semana passada, Fernando Gabeira disse que se sentia frustrado "ao ver que os bandidos estão triunfando na vida pública". E concluiu: "Não rolei tanto barranco para entregar o ouro aos bandidos". Claro que rolou. Claro que ele terá de entregar o ouro aos bandidos. Como todos nós. Mas o tom de seu discurso está certo. O que Fernando Gabeira pode oferecer a mim e a um montão de gente como eu, durante a campanha eleitoral, é isso mesmo: um tantinho de teatro e um tantinho de demagogia, chamando sempre os bandidos de bandidos.

Os oposicionistas não entendem por que não conseguiram arrebanhar o eleitorado antilulista. Eles não conseguiram porque o eleitorado não é tonto e sabe perfeitamente que eles não são antilulistas. Como declarou Fernando Gabeira na última quarta-feira, o Congresso foi tomado por quadrilhas. Essas quadrilhas estão acima do interesse partidário ou ideológico. Diante delas, lulistas e oposicionistas se comportam de maneira igual. O caso da empresa do filho de Lula é emblemático. Os oposicionistas tinham a oportunidade de atingir diretamente o presidente, mas preferiram ignorar o assunto, porque suas afinidades com a Telemar acabaram prevalecendo.

Para conquistar o eleitorado antilulista, Fernando Gabeira terá de dar o passo que ele ainda não ousou dar. Ele chamou Severino Cavalcanti de bandido. Ele chamou Ney Suassuna de bandido. Ele chamou Romero Jucá de bandido. Ele chamou Natan Donadon de bandido. Ele só não chamou Lula de bandido. Estou aqui, esperando.

Há também a questão do táxi. Fernando Gabeira lembrou que, em sua campanha para o governo do Rio de Janeiro, em 1986, ele não tinha dinheiro nem para o táxi. Respondi que era melhor ficar sem táxi. Das duas, uma: ou o candidato rouba e toma táxi, ou não rouba e não toma táxi. Fernando Gabeira não rouba. Por isso é meu candidato. Então não pode tomar táxi. Ele concordou comigo.

Fernando Gabeira apoiou Lula na campanha presidencial de 2002. Eu não. Fernando Gabeira foi contra a CPI dos Bingos. Eu não. Fernando Gabeira foi contra a guerra no Iraque. Eu não. Fernando Gabeira se preocupa com o acúmulo de nitrogênio no solo. Eu não. Mas não importa o que ele pensa. Fernando Gabeira é o único político que ainda pode dar algum sentido à disputa eleitoral, representando a recusa de uma parcela do eleitorado em aceitar calada essa bandidagem tão rudimentar.

Eu apóio Fernando Gabeira para presidente. Meu maior temor é que ocorra um acidente e ele seja eleito. Um candidato só é realmente bom se a gente sabe que ele nunca poderá ganhar.

1 Comments:

Anonymous Naiara Thais Pirondi said...

Concordo com o Senhor. Confesso que fiquei triste quando li o texto "Os bandidos na mesa do café" de Fernando Gabeira. Dava pra sentir a desesperança dele e quase que eu mesma me senti incapaz diante de tanta barbárie. Mas acredito que o Gabeira deve continuar com sua luta, focando em sua campanha os jovens do Brasil, quem sabe. Jovens que como eu ainda não perderam o idealismo necessário pra não se acostumar com os absurdos desse país.

domingo, maio 28, 2006 7:34:00 PM  

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